Mulher depois dos 50 anos cansada de guerra
São João del Rei-MG, 12 de Maio de 2022
Mulher, depois dos 50 anos me sinto cansada de guerra. E você?
A guerra é uma metáfora que não gosto de usar, mas não pude deixar de pensar no título do romance delicioso de Jorge Amado, Tereza Batista cansada de guerra. E a verdade é que tornar-se mulher em nossa sociedade há milênios se tornou uma escolha entre a prisão e a guerra. Vem comigo que te explico na estrada.
Antes preciso assentar algumas bases por aqui. Muito do que vou escrever daqui para frente pode não ser sua experiência [única e subjetiva], mas acredite - com todos esses anos atendendo mulheres no escritório [como advogada] ou no consultório [como terapeuta] - tudo o que vira texto, antes já foi fala de uma mulher de 30, 40, 50, 60 e até 70 anos. Dito isso, voltamos para a estrada que a viagem hoje vai longe.
O cansaço não é apenas físico, ele se expressa no corpo. O cansaço é mental e, sobretudo, emocional. Você passa sua vida atendendo expectativas - consciente ou inconscientemente - da sociedade, da cultura, da família. Atendendo a todos, menos a si mesma. Com o passar do tempo as expectativas se incorporam como tatuagens e passam a parecer suas. Daí você se cobra perfeição, desempenho, beleza... Cuida de todos, até da vida dos outros. E não cuida de si. Como não ficar exausta depois dos 50 anos? [ou mesmo depois dos 40 anos].
E essa é história tem uma origem muito mais antiga do que você poderia supor.
A expulsão do jardim do Éden ainda produz consequências na vida das mulheres. Mesmo se você não é Cristã, pensa comigo. As 3 maiores religiões do mundo têm a mesma base. Somos todos - de um modo ou de outro - guiados pela religião dos descendentes de Abraão. E mesmo que você pratique religião alguma, seja pagã, afro-religiosa, atéia, agnóstica... vivemos em uma cultura que foi profundamente impactada pelo mito de Adão e Eva.
Significa dizer que somos todas culpadas a priori pela expulsão do paraíso, pela vida dura, pelo pão vir somente com o suor do rosto e com sacrifício. Somos as traidoras que, curiosas, caíram na conversa sábia da serpente. E isso nos torna, o grande mal a ser derrotado.
Na cultura celta, o dragão está associado à força primordial da natureza - a vida - e como era o símbolo desta cultura, o dragão foi utilizado pelos cristãos como o símbolo do mal no combate ao paganismo, tanto que aparecem em representações do Arcanjo Miguel e São Jorge, derrotando um dragão. E veja que curioso, na cena tão replicada ele penetra a espada - símbolo fálico - no ventre do dragão a força primordial feminina.
E também por isso, quando nasce uma mulher, começa uma maratona com obstáculos que pode durar uma vida inteira. Desde menina ela não pode sentar de pernas abertas, não pode jogar capoeira, não pode usar azul [exemplos absurdos e ainda praticados em muitas famílias] e além de tudo o que não pode ela tem quê. Tem que obedecer, ser dócil, ser cordata, não responder, não questionar, não levantar a voz, servir, ser bondosa, ser caridosa, ser estudiosa, ser boa mãe, ser respeitosa, ser dedicada. Por anos e anos, ao longo de uma vida inteira, você mulher obediente segue o roteiro como lhe apresentaram: Estuda, entra para a universidade, conclui seu curso, se casa, tem filhos - não necessariamente nesta mesma ordem - passa em um concurso público ou exerce uma profissão respeitável que te dê segurança [tanto quanto], cuida da casa, dos filhos, do marido, dos pais e, se duvidar, cuida da sogra. Tem quê.
Como não chegar aos 40 anos ou depois dos 50 anos exausta? E acontece que quando chega o tempo do fogo sagrado - peri menopausa - a mulher, já exausta, é desafiada a fazer a travessia de sua fase fecunda para uma fase pós-fecunda. Os desafios da travessia são grandes por si e agravados pela sombra que se abate sobre a mulher. Pouco a pouco ela vai sendo invisibilizada na sociedade, desconsiderada no trabalho e deslocada na família para o lugar da avozinha cuidadora de netos, da mãezinha lavadora de roupas dos filhos adultos, alguém ultrapassada e sem opinião válida. Lenta e que não compreende a tecnologia.
Atenção aqui, mulheres, talvez você não esteja vivendo isso. Algumas de nós tiveram de lidar com o desafios da invisibilidade mais cedo e vestiram a armadura da guerreira. Isso não significa que milhares de mulheres ao redor do globo não estejam vivenciando esse processo de eliminação em vida, que resulta em uma imensa falta de vitalidade e motivação para seguir a caminhada.
Acontece que a travessia não espera e você tem sempre pelo menos dois caminhos. Dar adeus às armas e jogar fora os roteiros escritos para você seguidos à risca e tornar-se a senhora da sua própria jornada ou sucumbir e pouco a pouco tornar-se um arremedo da jovem mulher que você foi um dia ou o retrato de uma avó padrão anos 50.
Vencer é morrer no caminho. A escolha de dar adeus às armas e parar de lutar é deixar morrer as camadas de si criadas para atender às expectativas. É permitir-se despertar toda a sabedoria angariada ao longo da caminhada e expressar no mundo quem você realmente é.
Para isso será preciso render-se! Parar de lutar contra a vida, contra o tempo e simplesmente ser. Ser quem você realmente é. E aí vem o desafio maior da travessia é descobrir quem você se tornou e ir tirando as camadas que precisou criar para sobreviver até aqui. Esta travessia é uma jornada que você pode ir sozinha e solitária ou pode ir acompanhada em sua solitude.
A jornada pode ser um curto caminho longo ou o longo caminho curto. Em um curto caminho longo
você vai tentar modificar comportamentos e transformar-se exclusivamente pela razão, buscará nos livros de auto-ajuda para mulheres depois dos 50 anos as respostas e as encontrará, para em seguida se ver no mesmo lugar de antes. Terá respostas rápidas e soluções efêmeras.
O longo caminho curto, ao contrário, é uma jornada guiada por quem já fez a travessia e aprendeu com ela as pedras do caminho, os buracos na estrada e pode iluminar as passagens escuras e segurar sua mão quando estiver difícil. A guia não faz o caminho para você, nem por você, mas te acompanha e vai sinalizando o caminho. É longo, mas um caminho sem volta, sem retorno, sem se perder de si.
Para começar uma vida nova com a liberdade de escolher a própria rotina é preciso fazer a travessia do longo caminho curto com uma guiança certeira e bem acompanhada em sua solitude.
Quer saber mais?
Mande um email para mim e eu te aviso quando começa a nova jornada.
Com Amor,
Maria Cláudia Cabral | Aika
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