De quantos silêncios é feita a mulher depois dos 40 anos e mais?


 São João del Rei-MG, 27 de Junho de 2022



Mulher, 


Fico me perguntando de quantos silêncios é feita a mulher depois dos 40 anos ou dos 50 anos e mais. No fim de semana fui afetada com a polêmica envolvendo a atriz Klara Castanho, de 21 anos. Um silêncio foi rompido a fórceps e a emergência de toda a vergonha, a culpa e o medo das mulheres sintetizados na experiência de uma jovem mulher veio à tona. Me atingiu como um raio.

Às mulheres são negados os  mais  fundamentais, mesmo quando são vítimas de um crime hediondo. Klara Castanho não é a primeira, nem será a última. No Brasil a cada dez minutos em média 1 mulher é estuprada e este é um dado do fórum nacional de segurança pública que considera episódios denunciados à polícia. Se pensarmos no número de mulheres que silenciam sobre a violência sofrida por vergonha, medo ou culpa estrutural certamente seria ainda mais absurda essa média. 

Óleo sobre tela - Lucian Freud
E eu sei que talvez você, que já me conhece, notou o tom distanciado do texto.  Não é fácil falar sobre estupro. Não é fácil delatar o crime. Paira no ar em delegacias de polícia, hospitais, tribunais sempre o questionamento - não menos hediondo que o crime - sobre a reputação, o comportamento, as atitudes e a idoneidade da vítima. A violência pós violência pode ser ainda mais cruel e [re]traumatizadora. 

E por que resolvi falar sobre o assunto? Por que o silêncio auto imposto tem um preço, muitas vezes cobrado quando a mulher já passou dos 40 anos ou depois dos 50 anos e mais. O grito abafado na garganta, a denuncia não feita, o pavor soterrado, o segredo da dor, da vergonha e do medo que sentiram vão fermentando silenciosamente dentro de cada fibra muscular, em cada articulação, em cada víscera. A conta chega quando chegam os sintomas: Dores na base da coluna, síndromes como  a do intestino irritável, síndrome do pânico, ansiedade aguda, depressão, endometriose, sem sequer desconfiar que podem ser decorrentes do silêncio auto imposto depois de um [ou mais] episódios de violência sexual. 

As consequências da experiência de violência são imensuráveis e podem passar décadas enterradas no quintal até emergirem sem dar pistas de onde vêm. Sem imagens, sem significados por que o corpo sabe revelar sintomas sem aprofundar feridas e esse é um mistério que terapeutas e psicólogos - alguns mais outros menos - vêm desvendando a cada volta do parafuso, a cada avanço da ciência em direção à natureza e à vida. 

Uma coisa já se sabe... Não é por contar e recontar com detalhes de imagens e significados uma história que se cuida de um trauma e sem cuidar o trauma apropriadamente não é possível sanar os seus brutais sintomas. 

Cuidar de um sintoma com raiz traumática é dar espaço para que os sintomas se expressem e acompanhar respeitosamente seu suave transbordar. Para tanto é preciso 4 elementos:

1. Bom método natural, 

2. Experiência, 

3. Boa dose de compaixão. 

E você me perguntará: E o quarto? Bem, o quarto elemento não é obrigatório, mas quando presente pode potencializar muito o trabalho. É ele que faz a diferença entre uma terapeuta e uma curadora. 

4. Ter atravessado os próprios caminhos escuros, os medos, as vergonhas e as culpas. 

Quando a terapeuta(o) atravessou as próprias vergonhas, as culpas e os medos, quando olhou nos olhos do medo e transbordou suas dores com cuidado e derramou seus traumas, ela está pronta para ser uma curadora e se diferenciar em profundidade e cuidado de quem estudou  o trauma e até praticou.

Por isso, mulher... Experimenta buscar uma curadora quando for cuidar de seus sintomas. 

Com Amor,


Maria Cláudia Cabral |Aika




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